domingo, 15 de fevereiro de 2009
Long Way Down
terça-feira, 25 de novembro de 2008
De Pelé a Baudelaire
É imperdível pelo simples fato de juntar dois mundos que aparentemente não se comunicam. O cara que vai ao estádio xingar o juiz normalmente não escreveria um ensaio sobre futebol e o cara que escreve um ensaio sobre futebol normalmente não vai ao estádio xingar o juiz. E ele faz exatamente as duas coisas.
E através do livro estou descobrindo coisas que eu nem sonhava. A primeira delas é que o Pier Paolo Pasolini - isso mesmo, o cineasta, italiano, que fez Teorema e a Trilogia da Vida - escreveu um mini tratado sobre futebol logo depois da copa de 70. Não encontrei o tratado, mas o Zé (olha eu, íntima do autor), fala um pouco dele no livro.
Basicamente, o Pasolini explora a diferença do futebol latino e europeu através de uma comparação entre prosa e poesia e de como o futebol de alguns países se aproxima mais da prosa e outros da poesia. Daí ele fala da poesia do futebol latino, presente dentro de cada drible do Pelé, da cada jogada inventada, da nossa ginga charmosa de capoeira. E fala do futebol da Itália e do europeu em geral, com aquela cara mais de prosa, sistematizada, com passes triangulados e seguindo um código já previamente estabelecido aos jogadores que não sonham em campo e criam como os nossos.
A comparação vai longe, mas me fez pensar sobre como hoje (quase 40 anos depois) alguns jogadores brasileiros que nem jogam tão bem aqui viram ídolos no Europa. E começa aquela discussão de sempre sobre se é mais fácil jogar na Europa do que aqui e bla bla bla. Afinal de contas, um pobre lateral direito aqui do Brasil vira praticamente artilheiro em qualquer time de lá (vide alguns exemplos como Mancini, Deco, Julio Baptista e por aí vai). E no final, pode ser que o Pasolini tenha total razão. Ainda que o apogeu do futebol-arte tenha passado, a beleza ainda permanece. E talvez a poesia dentro dos dribles dos nossos jogadores conquiste qualquer país.
Porque a verdade é que poesia é para poucos. Ou como dizia nosso amigo Baudelaire (em uma das frases mais lindas da história das frases) - "Sois toujours poète, même en prose”.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
O Dino e o tempo
No ano passado, mais especificamente em março, li pela primeira vez um livro do Dino Buzzati. O Dino foi um dos maiores escritores italianos do século XX, nasceu numa cidade pequenininha da Itália em 1906, estudou direito e virou jornalista do Corriere della Sera. O livro dele que eu li chama O Deserto do Tártaros. E sempre que eu leio, eu grifo o livro. E ontem eu peguei O Deserto dos Tártaros para olhar de novo.
É um livro que conta a história de um soldado, o Drogo, cujo sonho é participar de uma gerra. Ele é enviado para um forte isolado do mundo e fica lá, esperando os "tártaros" chegarem para rolar a batalha (não vou falar mais porque daí é spoiler).
O livro é a coisa mais linda. Apesar de ter sido lançado em 1940, é completamente atemporal. Ele fala de espera, de escolha, da passagem do tempo e de como ele escorre pelas mãos. De como a gente vive a nossa vida esperando que algo extraordinário aconteça para nos redimir e justificar a nossa existência. Seja viver um grande amor, morar na praia, ter uma pousada no Sul de Minas ou só ficar rico.
E a gente fica sempre pensando que tem o tempo todo pela frente para fazer o que é preciso, que o extraordinário está sempre adiante. E a vida vai passando e talvez nada extraordinário aconteça ou talvez a gente faça a escolha errada ou o talvez o extraordinário passe despercebido. E aí, o que sobra? Teoricamente, não sobra nada. A gente morre e abraço. Só que daí eu penso: dá pra viver sem sonhar? Eu acho que não. Acredito em pequenas realizações diárias e reconheço a importância de todas elas. Mas não tira meu sonho de mim, por favor. Sem ele, fica tudo cinza e muito, mas muito sem graça.
Informação importante: o livro virou filme. Valerio Zurlini foi quem filmou apesar de todo mundo falar que o Antonioni adorou esse livro também. Mas não vejam o filme não, leiam o livro.